A Sublimação na Teoria Psicanalítica


ARTE, PSICANÁLISE E SUBJETIVIDADE NO PENSAMENTO FREUDIANO


RESUMO


O presente artigo propõe-se à compreensão do processo descrito por Freud como
sublimação e ao desenvolvimento de algumas reflexões críticas acerca do tema, buscando
contribuir para o enriquecimento do diálogo psicanalítico no que tange ao objeto em questão.
O objetivo principal consiste em explorar a potência conceitual das teorias já formuladas sobre
a temática proposta, através de uma revisão teórica geral. Para que seja possível desenvolver as
questões implicadas nesse processo, farei, inicialmente, uma breve explanação sobre alguns
conceitos freudianos essenciais à compreensão da sublimação, introduzindo, em um segundo
momento, as discussões teóricas desenvolvidas pelos demais autores.


INTRODUÇÃO


O conceito de sublimação sempre foi alvo de algumas controvérsias nos círculos
psicanalíticos, devido ao caráter denso e contraditório dos textos freudianos, sobretudo no que
se refere ao tema aqui apresentado, sendo este abordado como um desdobramento da teoria das
pulsões, porém compreendido, ora como um mecanismo de defesa do ego, ora como um
processo de produção de sentido. Essa dualidade é uma característica comum no pensamento
de Freud, cuja obra é marcada por uma certa nebulosidade no que concerne ao desenvolvimento
de alguns conceitos. Isso se deve, em parte, ao fato de que ele jamais negou seus
atravessamentos históricos e culturais, mostrando-se sempre disposto a reformular suas teorias,
quando julgava necessário.
O processo sublimatório, no complexo funcional do aparelho psíquico, está relacionado
à teoria das pulsões, ao passo em que consiste no distanciamento entre uma pulsão e o objeto,
gerando um redirecionamento da libido para outras finalidades, sejam elas artísticas, científicas
ou de qualquer outra ordem. A priori, podemos assumir que se trata de uma espécie de
“dessexualização” da libido. No entanto, essa concepção foi amplamente discutida, tanto por
Freud, quanto por seus sucessores, como veremos mais à frente.
Na primeira tópica, Freud apresenta a sublimação a partir do ponto de vista da defesa
do ego, enquanto, na segunda tópica, o conceito ganha novos contornos e passa a designar um
processo produtivo, que se move no sentido da construção de uma expressividade
transformadora. A adoção do conceito de pulsão de morte, apresentado por Freud pela primeira
vez em sua obra “Além do Princípio do Prazer”, de 1920, tem um papel fundamental nessa
mudança de rumo da teoria das pulsões e, consequentemente, do mecanismo da sublimação.
No entanto, é somente a partir de 1930, em sua obra “O Mal-Estar na Cultura”, que Freud
admite a existência de uma destrutividade inerente ao ser humano e pode, então, abrir caminho
para o desenvolvimento do conceito de sublimação a partir da pulsão de morte.
Apesar da ambiguidade conceitual presente em sua obra, Freud buscou compreender a
correlação entre a cultura e a dinâmica pulsional, analisando, a partir de uma perspectiva
metapsicológica, a relação do sujeito com o seu meio. Existe ainda alguma obscuridade no que
concerne a essa questão, no entanto, é preciso admitir que “Freud desvendou uma dimensão do
fato social acessível apenas à psicanálise – sua dimensão inconsciente – e a Filosofia, ou a
ciência social, não podem ignorar esta determinação essencial do objeto que se propõem
elucidar” (MEZAN, 1985).
Para Freud, a organização da sociedade moderna está ancorada na repressão dos desejos,
impedindo, dessa forma, que as pulsões se manifestem livremente e acarretando a necessidade
de uma reorientação da libido, seja por meio do recalque ou de outros mecanismos
possibilitadores de deslocamentos e desvios libidinais. Trata-se de questionarmo-nos de que
forma e a partir de quais dispositivos esses mecanismos funcionam na prática.


PRIMEIRA TÓPICA – TEORIA DAS PULSÕES


Em 1905 Freud desenvolvia os “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”, obra na
qual foi apresentada sua tese sobre as pulsões – assunto que já havia sido mencionado em textos
anteriores, porém muito superficialmente. No entanto, é somente partir da descoberta do
Complexo de Édipo e da consequente aceitação da sexualidade infantil, que Freud começa a
distinguir a pulsão dos instintos e passa a compreender a pulsão como processo dinâmico de
condução dos impulsos sexuais ao seu objetivo final: a satisfação.
Seria possível utilizar a mesma definição para o instinto, caso não existisse uma
diferença essencial distanciando os dois conceitos: Nos instintos temos modelos estáveis de
comportamento, herdados hereditariamente, e objetos definidos. Nas pulsões, por outro lado,
os padrões são delineados ao longo da trajetória social individuante de cada sujeito e não há
objeto fixo. Portanto, quando falamos em pulsão, temos de considerar as variantes – muito mais
discrepantes do que no caso dos instintos – que poderão ser compreendidas como desvios.
A pulsão, para Freud, é considerada um representante psíquico dos estímulos que se
originam no corpo e é, portanto, a responsável por presentificar, no plano psíquico, tudo aquilo
que se encontra relacionado às demandas corporais. Isso significa dizer que a fonte da pulsão é
sempre corporal e pode ser definida como “um processo somático que ocorre num órgão ou
parte do corpo e cuja excitação é representada na vida mental pela pulsão” (FREUD, 1974 apud
GARCIA-ROZA, 1985). No entanto, a pulsão não é, em si mesma, o mecanismo que atua
diretamente no plano mental; ela necessita também de seus próprios representantes psíquicos,
sendo estes a ideia e o afeto. O conteúdo do inconsciente é, portanto, constituído essencialmente
pelo representante ideativo da pulsão, sobre o qual incide o processo de recalcamento (e não
sobre a pulsão propriamente dita). O afeto, por sua vez, possui outros destinos, pois, segundo
Freud, este só pode atingir o nível do inconsciente quando ligado a uma ideia (representante
ideativo).
Há, no entanto, mais alguns elementos constituintes do circuito pulsional; além da fonte,
podemos falar ainda em pressão, objetivo e objeto. A pressão seria, de acordo com os textos
freudianos, o aspecto dinâmico da pulsão, a exigência de trabalho imposta por ela; o que
estimula o organismo a realizar uma atividade específica, responsável pela descarga energética
e, consequentemente, pelo aniquilamento da tensão. O resultado dessa operação de pressão
pulsional seria, por fim, o objetivo da pulsão, ao passo em que a referida descarga energética se
configura como a via através da qual se pode obter a satisfação. O que se considera como objeto
da pulsão, por sua vez, é uma espécie de “ferramenta psíquica” através da qual se pode alcançar
o objetivo final.
Contudo, é importante salientar que o objeto não é sempre real (como uma pessoa),
podendo vir a ser, em alguns casos, um objeto simbólico. É essa variação na classificação dos
objetos que nos permite falar em relação objetal, conceito desenvolvido por Freud para se referir
às diversas maneiras de se relacionar com a pulsão. Todas as fases da organização da libido,
por exemplo, compreendem formas diferentes de estabelecer conexões com o objeto da pulsão,
seja ele real ou simbólico, parcial ou total.
Como dito nos parágrafos anteriores, independente da relação objetal que se estabeleça,
as pulsões tendem sempre à satisfação. No entanto, quando Freud falava em destinos das
pulsões, referia-se às suas travessias; não ao que as pulsões se destinam no fim de tudo
(objetivo), mas aos revezes que se dão no processo ou, nas palavras de Freud, às vicissitudes
pelas quais as pulsões têm de passar durante o processo de constituição do indivíduo.
Os destinos das pulsões são definidos por Freud como inversão (reversão ao seu oposto);
retorno em direção ao próprio eu; recalcamento e sublimação. É importante frisar, porém, que
tais mecanismos irão incidir somente sobre o representante ideativo da pulsão, não diretamente
sobre ela. Já sobre o afeto – o outro representante psíquico da pulsão – incidem mecanismos
distintos, descritos por Freud como transformação do afeto (histeria de conversão),
deslocamento do afeto (obsessão) e troca de afeto (neurose de angústia e melancolia).
Podemos dizer, portanto, que os destinos das pulsões aos quais Freud se referiu, são, na
verdade, as vicissitudes do representante ideativo das pulsões. O afeto, apesar de sofrer os
efeitos do recalcamento, não é, por si só, recalcado, alcançando o nível do inconsciente apenas
através de um representante ideativo ao qual se conecta. Portanto, em última análise, o que o
recalcamento produz é uma fissura entre o afeto e a ideia a qual ele estava conectado. Utilizando
uma terminologia lacaniana, é possível afirmar que o recalque incide, acima de qualquer coisa,
sobre os significantes.
Através do circuito pulsional, portanto,


O registro somático foi convertido no registro erógeno, isto é, o
organismo foi efetivamente transformado num corpo, pois o que está
em jogo o tempo todo na construção empreendida pelo discurso
freudiano é a realização da experiência da satisfação, pela acoplagem
dos impulsos a objetos que a possibilitariam1


No primeiro texto dos “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”, Freud cita a
sublimação ao tratar de questões relacionadas ao universo sensível, tais como o olhar e o toque,
parecendo flertar com uma concepção sublimatória com aparente potencial para transcender
sua tese inicial da sublimação como mecanismo de defesa do Ego. No entanto, logo a seguir
ele retorna à sua concepção inicial, mantendo a sublimação em seu papel desviante, imbricada
no processo educacional da fase de latência infantil. Além de resgatar o componente orgânico,
que, embora parcialmente abandonado por Freud após O Projeto, retorna em alguns momentos
em seus textos, demonstrando sua inclinação para a biologia e suas tendências cientificistas,
como médico neurologista.
Nesse ponto, Freud afirma que a pulsão sexual vem marcada por um recalque orgânico
e descreve o processo de sublimação como a produção de forças psíquicas opostas (em direção
a objetivos não-sexuais), gerada pela experiência de desagrado que nasce dos impulsos sexuais
derivados das zonas perversas do aparelho psíquico. A sublimação seria, portanto, um impulso
reativo e desviante (Jorge, M. A. C, 2015), mas ainda derivado de processos sexuais. Ao final
dos Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, Freud ressalta a existência de três desfechos


1 BIRMAN, Joel. As Pulsões e seus Destinos. Editora Civilização Brasileira, 2016.

para a perversão polimorfa2 da criança, que também podem ser compreendidas como
formações reativas. São elas: A Perversão, o Recalque e a Sublimação.
A perversão na fase adulta seria, em poucas palavras, a continuidade da perversão
polimorfa infantil; a ausência da castração e a passagem incompleta da fase pré-genital para a
fase genital. Já o recalque e a sublimação aparecem em vários momentos da primeira tópica
como resultados opostos do mesmo processo de vicissitudes das pulsões. Tanto por um
caminho, quanto por outro, trata-se de evitar a satisfação sexual direta, sendo que o recalque se
dá no nível da culpa, da proibição, da vergonha; enquanto a sublimação se consolida como uma
espécie de estética da civilidade.
Segundo o Psicanalista Joel Birman, portanto, na primeira fase dos textos freudianos,


[…] a sublimação seria uma operação de refinamento psíquico,
criando as grandes produções do espírito, pelas quais a defesa
afastaria a presença brutal de fantasmas sexuais. Como refinamento,
pois, a sublimação seria uma decantação e purgação da sexualidade
horrenda e imunda que se inscreveria no coração da condição humana,
de forma que as mais elevadas produções do espírito indicariam as
suas origens bem pouco nobres.3


O que Birman chama de “sexualidade horrenda e imunda” seria aquela de origem
perverso-polimorfa, sob a qual se assenta, na teoria freudiana, todo o processo de constituição
do aparelho psíquico infantil. Para ele, portanto, a concepção de sublimação produzida por
Freud no início de sua obra repousa do berço da moral civilizatória ocidental, ao apontar o
mecanismo sublimatório como uma defesa do indivíduo contra as forças sexuais perversopolimorfas, com vistas à construção e manutenção da “família nuclear burguesa”. Na opinião
do autor, contudo, tal pensamento gera um paradoxo irremediável, pois “esta renúncia erótica
da modernidade em nome da civilização teria exigido um alto custo para as individualidades”
(BIRMAN, Joel. 2019), suprimindo uma parte indispensável à construção subjetiva do sujeito:
o registro simbólico.
Independente de tais implicações, no entanto, Freud não se mostrava satisfeito com o
seu percurso de desenvolvimento do conceito de sublimação e, ao longo dos textos seguintes,
transitou por diversas possibilidades de interpretação. Em 1908, em seu ensaio referente à
Leonardo da Vinci, Freud concebe o mecanismo sublimatório como uma metamorfose direta
da perversão polimorfa, porém sem nenhum tipo de negação da sexualidade infantil. Não
haveria, então, dessexualização da libido, mas apenas uma transformação desta em conteúdo


2 Capacidade que a criança possui de experimentar o prazer sexual de formas distintas e sem objeto fixo.
3 BIRMAN, Joel. Cartografias do Avesso: Escritas, Ficção e Estéticas de Subjetivação. José Olympio, 2019.


não-sexual. Trata-se, não mais de uma defesa contra a perversão polimorfa infantil, mas de sua
própria continuação metamorfoseada a partir das construções subjetivas de cada indivíduo.
Nesse caso, a sublimação não seria mais um processo reativo derivado da sexualidade infantil,
mas uma mutação dela própria. Até esse ponto da teoria freudiana, a força propulsora da
sublimação ainda é a pulsão sexual, embora transmutada em força criadora.
Ao analisar a obra de Leonardo da Vinci, Freud recorre à sua biografia e estabelece uma
comparação entre a vida e a obra do artista, identificando a sexualidade perverso-polimorfa de
da Vinci investida diretamente em suas criações artísticas. Um “fantasma primordial de
devoração da figura materna pelo infante, evidenciando as marcas e cicatrizes que
permaneceriam como rastros psíquicos indeléveis da experiência fundamental do aleitamento
infantil” (BIRMAN, Joel, 2019). Freud passava, então, a compreender a sublimação a partir de
uma produção fantasmática transmutada pelo espírito em criação artística.
Em todos os casos, no entanto, trata-se de compreender a sublimação como uma das
formas de evitar a descarga energética da satisfação sexual direta, o que implica em inscrevêla – no contexto do primeiro dualismo pulsional – no território do princípio de realidade, em
oposição ao princípio do prazer (CASTIEL, 2007). Nesse caso, somente as pulsões sexuais
seriam propensas à sublimação, o que gera um paradoxo, pois isso implicaria supor que as
pulsões do Eu estariam também investidas de libido. Tal concepção ameaçava o dualismo
pulsional, tão intensamente defendido por Freud, em oposição ao monismo pulsional de Jung.

SEGUNDA TÓPICA – SUBLIMAÇÃO E PULSÃO DE MORTE


A partir de 1914, com seu texto Introdução ao Narcisismo, Freud inaugura uma nova
proposta teórica para o campo pulsional, o que permite o traçado de caminhos alternativos para
pensar a sublimação, a partir do reconhecimento da natureza libidinal das pulsões do Eu, como
pulsões narcísicas de autopreservação.
Em 1915, no texto Pulsões e Destinos da Pulsão, também é possível identificar uma
mudança clara no lugar ocupado pela sublimação na teoria pulsional, a partir da reconfiguração
não apenas das metas, mas também no objeto das pulsões presentes no processo sublimatório.
Segundo Garcia-Roza (2017), no referido texto a dessexualização não se encontra mais na
pulsão e sim no objeto, mantendo o caráter sexual da pulsão que, devido à sua plasticidade, é
capaz de realizar investimentos diversos. Nesse caso, a libido investida no objeto retorna para
o Eu, assumindo a forma de libido narcísica, e, em seguida, é reinvestida em um objeto nãosexual, cuja natureza socialmente aceita, permite que o processo sublimatório se complete.
Além do Princípio do Prazer, texto freudiano de 1920, opera mais uma transformação
significativa na teoria das pulsões, com a assunção da existência da pulsão de morte, em
oposição à Eros (pulsão de vida), e sua especulação acerca da desfusão pulsional. Neste
momento, Freud começa a se questionar se essa libido dessexualizada poderia se unir, não
apenas à pulsão erótica, mas também a uma energia pulsional destrutiva, ao passo em que o
desinvestimento em objetos que se integravam à libido pode operar uma cisão no circuito
pulsional e uma consequente desfusão. A partir de então, Freud passa a considerar a ideia de
uma tendência de retorno à um momento anterior à própria vida orgânica e começa a considerar
a existência psíquica como manifestação de um conflito originário entre pulsão de vida e pulsão
de morte.
Na obra intitulada O Eu e o Id (1923), Freud reafirma seu novo direcionamento teórico,
reforçando as teses que já haviam sido anunciadas nos textos anteriores, com a mudança de
objeto da pulsão. O objeto não-sexual seria, portanto, no processo da sublimação, uma
representação simbólica do objeto original, agora criado pelo próprio sujeito, no decurso de
uma construção subjetiva. Nesse contexto, a sublimação pode ser pensada como mecanismo
instaurador de intensidades no registro simbólico, operando, tanto no sentido da manutenção da
vida e criação de possíveis, como da aniquilação completa.
Segundo Laplanche (1985), apesar na inscrição do simbólico no processo sublimatório,
sua relação com a libido narcísica prevê uma certa proeminência do recurso identitário,
apaziguando o indivíduo e amenizando os efeitos da cisão subjetiva. Por essa razão, acreditase que a sublimação pode operar uma disrupção anterior à simbolização, rompendo o circuito
pulsional para, só então, instaurar o reinvestimento na criação do objeto simbólico. Em outras
palavras, haveria uma intervenção da pulsão de morte na sublimação, dada após a
transformação da libido objetal em libido narcísica, e enriquecendo o processo simbólico com
a diferença produzida no movimento disruptivo. Nesse caso, a pulsão de morte seria resultante
do processo de desinvestimento dos objetos que anteriormente fixavam a libido, ocasionando a
fragmentação do circuito pulsional.
A esse respeito, Castiel (2007) afirma que a fixação da libido no objeto é o que
inviabiliza a plasticidade da pulsão e, portanto, a principal diferenciação entre o recalque e a
sublimação seria o fato de que, ao contrário do recalque, a sublimação pressupõe uma
mobilidade pulsional que possibilita a existência de mecanismos desestruturantes, tais como o
que foi descrito acima. No entanto, é importante ressaltar que tal plasticidade pulsional, em
contato com irrupção da pulsão de morte no decorrer do processo sublimatório, pode criar as
condições para uma destrutividade irreconciliável com a vida orgânica, resultando no que seria
o oposto do esperado pela sublimação: a aniquilação do sujeito.
Joel Birman (2002) localiza a sublimação, pelo viés do segundo dualismo pulsional,
como um processo de desterritorialização e “ruptura de fixações eróticas”, o que pressupõe,
sobretudo pela relação com a pulsão de morte, uma vulnerabilidade do sujeito diante de suas
próprias formações inconscientes, permitindo a derrocada das representações que estruturavam
o Eu e o abandono do sujeito ao seu próprio desamparo.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


De acordo com o que foi dito até então, parece possível pensar a sublimação pela via do
devir, como mecanismo possibilitador de modos de existência, cuja expressividade encontra,
na desestabilização do circuito pulsional, sua condição criadora.
Ao que tudo indica, ao invés de ratificar as certezas narcísicas e finalidades egoicas do
ser humano, a sublimação aparece como mecanismo desarticulador do Eu, capaz, no entanto,
de reestruturar o psiquismo através da criação, seja da arte ou de novas formas de vida.
Tal como desejava Lacan, podemos assumir que a sublimação é da ordem do
inassimilável, do estranho, do obscuro; situa-se no terreno criador e não no reparador. No
entanto, diante da emergência do real, o processo sublimatório poderia ser considerado como
algo a ser desenvolvido no set analítico, ao passo em que se propõe a trabalhar com o próprio
vazio, enquanto presença. Acredito ser possível, portanto, considerar a sublimação como uma
possibilidade para o gozo, se pensarmos no gozo como uma das infinitas contingências para o
indivíduo implicado no processo de análise, enquanto agente da sua própria cura.


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